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Fontes da metodologia

O método Conscientia foi desenvolvido a partir de vários fontes. A base sobre o conceito do ser humano está na Psicanálise Integral, uma escola brasileira de psicanálise fundada por Norberto R. Keppe (Brasil, 1927 -).

A abordagem psicanalítica foi desenvolvida com a colaboração de vários profissionais, clientes, escolas e locais de trabalho na Suécia, Finlândia, e não menos importante entre as cooperativas de trabalho e institutos de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra do Brasil (MST).

Este processo combina experiência no processo terapêutico individual levando em consideração das necessidades especiais em situação coletiva, onde as pessoas não têm acesso ao tratamento. O método tornou-se assim com mais de 20 anos de colaboração entre clientes, psicanalistas, terapeutas, estudantes, diretores de escolas, conselheiros, assistentes sociais, consultores de gestão, os ativistas dos movimentos sociais, etc. O objetivo é integrar a abordagem do indivíduo com o coletivo, integrar a abordagem psicanalítica e os métodos cognitivos.

A seguir, são citações e interpretações de vários pensadores que foram fontes do processo ou que tenham pensamentos similares.

Hipócrates (Grécia, cerca de 460-370 aC.), considerado o pai da medicina, disse que a saúde é a harmonia interior do homem e a harmonia entre ele e seu entorno; ser saudável significa se tornar consciente de seus conflitos e viver sob as leis da natureza. A mesma idéia, quase, expressa por François Voltaire (francês, 1694-1778): "A arte da medicina é tranqüilizar o paciente, de modo que a natureza possa curar a doença."

Sócrates (Grécia, cerca de 470-399 aC.) acreditava que a verdade existe no interior da pessoa. O papel do filósofo é agir como parteira, ajudando no processo de nascimento do conhecimento (conscientização) através de um diálogo com perguntas. Para Sócrates uma questão básica de vide é “Conhece a ti mesmo.”

Segundo Platão (Grécia, cerca de 428-348 aC.) não podemos confiar em nossas mentes, mas podemos confiar no que a razão nos diz, já que a razão é a mesma para todas as pessoas. Ele teve a percepção de que os seres humanos tem contato com a verdade universal por algum tipo de senso ético, que ele chama de razão.

Aristóteles (Grécia, 384-322 aC.) descreveu Deus como ato puro, isto é, infinitamente intensa ação (criação) em bondade, verdade e beleza. Dentro do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo é crença que os seres humanos foram criados à imagem de Deus. Assim sendo a essência humana é ação pura, mas com limitações humanas. Na medida em que o homem age de maneira "pura" (sendo verdadeiro, belo e amoroso), ele é si mesmo, em outras palavras o que é criado para ser.

Agostinho (Império Romano, 354-430) considerou que o mal é a ausência de Deus. O mal não tem existência por si.

Tomás de Aquino (italiano, cerca de 1225-1274) tentou conciliar a filosofia aristotélica e a doutrina cristã. Aderiu a idéia de Aristóteles de ver a verdade como um ideal de felicidade.

Sören Kierkegaard (Dinamarca, 1813-1855), assim como Karl Jaspers (alemão, 1883-1969) diziam que a existência humana é definida por algo que ultrapassa a vida finita, concreta. Os seres humanos relacionam-se consigo mesmos através do relacionamento com o corpo (o sentido da vida, Deus) transcendental (metafísico). O existencialismo acredita que o homem é livre para escolher, ele é responsável por suas escolhas e sente o impacto em diferentes níveis. A mente ética, consciência, existe para nos fazer ver nossas intenções e escolhas erradas (como Sócrates e Platão diziam). Todas as escolhas tem o objetivo basicamente no metafísico, isto é, além da existência material, a vida após a morte. A essência existe por si só, a existência é uma deturpação, uma conseqüência das escolhas humanas.

Fiódor Dostoiévski (Rússia, 1821-1881) escreve que a ação do homem justificada é muito mais complicada e ambígua do que podemos compreender. Os seres humanos têm a capacidade de alimentar sua alma com os mais altos ideais e as intenções mais pervertidas – simultaneamente e acreditando em suas boas intenções. Ele também escreveu que sem um coração puro, não existe uma consciência perfeita.
Sabemos muito sem notarmos isso (intelectualmente), apenas pelo sentimento. A verdade não vem fora de você, mas dentro de você, submeta-se a isso. Temos que amar tudo para descobrir o mistério de Deus em tudo.

Anton Makarenko (1888-1939), o pedagogo russo inspirado por Maxim Gorki (russo, 1868-1936) desenvolveu uma linha de educação e pedagogia própria. Ele enfatiza ser o prejudicial para uma criança viver e se acomodar em uma vida ociosa e sem propósitos. Fundou colônias para jovens criminosos com os princípios de cura baseados no afeto, respeito, regras claras, cooperação e democracia.

Logo terapia (ou análise de existência) visa, de acordo com seu fundador, Viktor Frankl (Áustria, 1905-1997), essencialmente na responsabilidade. Em seu livro Deus e a inconsciência - psicoterapia e religião, ele escreve que a existência é uma vida com responsabilidades. Em psicanálise é claro os aspectos operacionais para se tornar consciente - na análise existencial é o espiritual que se torna consciente. Na análise existencial trata a duração humana como algo que não é determinado pó instintos, mas como algo responsável, justamente sobre a existência – espiritual. A religiosidade inconsciente significaria que procuramos sempre, inconscientemente, Deus, portanto que já temos um relacionamento inconsciente com Deus. Contrariamente a isto escreve Sigmund Freud (Áustria, 1856-1936): "A religião é a neurose forçada humana em geral."
De acordo com Frankl, o médico fiel (aqui, psicanalista) deve abrigar um interesse maior para que a religiosidade tenha uma aceitação fortalecida. Há uma religiosidade latente também na pessoa que se manifesta irreligioso. Toda verdadeira religião tem que ser espontânea.

A loucura na neurose forçada (precisão meticulosa com sua consciência hipersensível) é que a pessoa quer ir acima de sua capacidade como criatura. Quanto mais amplo é uma idéia, mais difícil é entender-la. A idéia infinita não é possível ser entendida por um ser finito. Aqui termina a ciência e a sabedoria da palavra, o coração da sabedoria que Blaise Pascal (França, 1623-1662) disse sobre: "O coração tem suas razões que a razão nunca entenderá." Cada situação é um chamado que nós temos que escutar e obedecer. Mesmo em uma situação sem esperança, as pessoas encontram significado.

Emmanuel Swedenborg (Suécia, 1688-1772): o amor e a sabedoria não valem nada se não forem traduzidas em ação. São apenas fantasias e não se tornam reais até terem um proveito. Um pequeno incêndio apaga com a tempestade enquanto um grande incêndio toma grandes proporções por ela, assim enfraquecer uma fraca fé diante as dificuldades e catástrofes, enquanto uma forte fé é fortalecida por elas.

Ludwig Wittgenstein (Alemanha, Áustria, Grã-Bretanha, 1889-1951): "Acreditar em Deus é perceber que a vida tem um propósito."

De acordo com Albert Einstein (Alemanha, 1879-1955) o objetivo da escola é além de despertar talentos inatos e curiosidade no indivíduo como também desenvolver no individuo o senso de responsabilidade para com outras pessoas. Ele criticou a escola que ao invés disso glorifica e cria no indivíduo a mentalidade competitiva, o caso da sociedade existente. O homem deve ser avaliado de acordo com o que ele é capaz de dar ao invés do que é capaz de prover a si mesmo.

O educador brasileiro Paulo Freire (Brasil, 1921-1997) constatou que todas as pessoas oprimidas tornam-se opressoras. Quando aceitamos ser oprimidos psicologicamente, oprimo-nos a nós mesmos e como conseqüência tendemos a oprimir os outros.

Erich Fromm (Alemanha, 1900-1980) procurava integrar a critica da sociedade de Karl Marx (Alemanha, 1818-1883) com a psicanálise de Sigmund Freud em um misticismo ateu. Tanto no comunismo autoritário como no capitalismo denominado livre executado por uma classe burocrática de políticos profissionais e donos do capital. No fundo os dois tem percepções materialistas, independentemente da ideologia cristã no Ocidente e o conceito de salvação no Oriente. Durante o século XIX o problema foi que Deus está morto, no século XX o problema é que o homem está morto. O perigo do futuro é que o homem vire um robô. Os robôs não se rebelam. Fromm afirma ser preciso descentralizar o trabalho e o órgão estadual para lhes atribuir proporções humanas. No plano econômico precisamos de uma co-gestão de todos que trabalham em uma empresa, permitindo sua participação ativa e responsável. A exploração do homem pelo homem deve ser revogada e a economia deve se tornar um agente do desenvolvimento humano. O capital servirá ao trabalho e as coisas têm que servir a vida.

De acordo com o psicanalista Norberto Keppe (Brasil 1927-) o mal é a conseqüência da negação do bem. O mal não existe por si só, mas precisa do bem para existir. Keppe cunhou alguns conceitos práticos para descrever como as pessoas distorcem e negam a verdade, a realidade, tais como censura, megalomania e perfeccionismo (teomania), inveja e inversão. Uma pessoa ou um acontecimento que provoca um medo ou raiva excessiva implica na identificação, a pessoa está se percebendo através do outro (espelho psíquico). O amor que se exprime por atos bons são a essência dos seres humanos. Keppe escreve: "Se um homem reconhece ter ou ser algo valioso, ele sente o dever de cuidar e progredir isto." Ele continua dizendo que o grande problema do homem não é falta de auto-conhecimento, mas seu esforço para evitá-lo. Como o homem na sua essência é bom, ele só vai se sentir realizado se fizer o bem. O maior problema do homem não é ter problemas, mas não querer vê-los.

Escola de Enfermagem em Halland, Suécia escreve em sua introdução que "O ser humano é bom por natureza, honesto e criativo.”

A metodologia na parte coletiva recebeu um pulso significativo através de cooperação com as cooperativas de reforma agrária no Brasil. O processo iniciou no ano 1999 na Cooperativa Agropecuária Vitória – COPAVI em Paranacity, PR quando se começou a aplicar e integrar os conceitos de terapia psicanalítica numa organização de democracia direta. A experiência foi se alastrando para outras cooperativas, e mais tarde nos institutos de educação do MST, como Instituto de Educação Josué de Castro - IEJC, Instituto Educar e Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia - CEAGRO.